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BUNKER-LIFE
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TRÊS MAIS UMA GATA

Em retrospectiva, até não nos saímos mal. 

Apesar de alguns dias mais claustrofóbicos, a família do bunker aguentou bem o confinamento.

Eu, que trabalho em casa há mais de 20 anos e sou, por natureza, uma espécie de eremita meio misantropo, treinei para isto durante duas décadas. Não sair de casa dias a fio é uma coisa normal para mim. Senti falta de sair, claro! Dos meus almoços de peixe na brasa, com o meu pai, às quintas-feiras, de sair ao fim de semana para ir ao cinema ou dar uma volta. Mas ficar fechado em casa por obrigação não me custou particularmente.

A minha mulher, corajosa, era quem se aventurava para ir às compras, até que, quando a coisa começou realmente a piorar, começámos a encomendar o avio de compras online. Ela, que passou 20 e tal anos a dizer que nunca se habituaria a trabalhar em casa, habituou-se a trabalhar em casa. E não só se habituou, como passou a gostar. Quem diria que deixar de passar 4 horas por dia, em transportes, para ir e vir do trabalho seria uma coisa boa?

A minha filha, tendo a quem sair, quase chorou quando chegou à altura de desconfinar. É quase tão misantropa quanto eu. O ano escolar foi  uma desgraça transversal a quase todos os miúdos. As autoridades foram tardias a perceber que não tinham alternativa senão fechar as escolas, e demoraram demasiado a agir no sentido de encontrarem soluções para aulas online. Foi um ano escolar basicamente perdido, para o lixo...

A gata não se importou com nada disto, claro!

Entre as gotas da chuva, comecei a escrever um diário da vida no bunker. Inicialmente uma paródia total, inspirada em filmes e jogos. Em cenários apocalípticos, criaturas estranhas emergiram dos desertos urbanos, e personagens bizarras ganharam vida. Meti na cabeça que iria escrever um diário enquanto tivesse tempo e paciência para isso.

E aqui têm... 60 dias de diário do bunker, juntos com algumas ilustrações das criaturas e personagens que foram brotando para a existência, naquele que foi um dos anos mais bizarros da minha vida, e da vida de tanta gente.